Respiração ruidosa durante o sono: o que está por trás do ronco e por que ele merece atenção
28/04/2026

Dormir ao lado de alguém que ronca virou tema de piada, mas o assunto deixa de ser engraçado quando o som começa a interferir no descanso da casa inteira ou, pior, quando o próprio roncador acorda cansado todos os dias. 

A respiração ruidosa durante o sono não é só um incômodo acústico. É um sinal de que o ar está passando com dificuldade pelas vias aéreas, e essa dificuldade tem causa, tem consequência e tem tratamento.

Entender o que provoca o ronco é o primeiro passo para saber quando ele é apenas um detalhe da noite e quando exige avaliação médica.

Por que a respiração faz barulho ao dormir

Durante o sono, a musculatura da garganta relaxa. Esse relaxamento é normal e necessário, mas, em algumas pessoas, ele estreita a passagem do ar. Quando o ar tenta atravessar um espaço mais apertado, ele acelera. 

E ar em alta velocidade faz vibrar as estruturas moles que encontra pelo caminho: palato, úvula, base da língua, paredes da faringe. Essa vibração é o ronco.

Quanto mais estreita a passagem, mais intensa a vibração e mais alto o som. Em alguns casos, o estreitamento é tão grande que o ar para de passar por alguns segundos. É aí que o ronco deixa de ser apenas barulho e passa a ser um marcador de apneia obstrutiva do sono.

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As causas mais comuns

A respiração ruidosa raramente tem uma causa única. Quase sempre é a soma de fatores anatômicos, funcionais e de estilo de vida.

Obstruções nasais estão entre as causas mais frequentes e mais subestimadas. Um desvio de septo, hipertrofia dos cornetos, rinite alérgica mal controlada ou pólipos nasais reduzem a passagem do ar pelo nariz. 

A pessoa passa a respirar pela boca durante o sono, e a respiração bucal aumenta a vibração das estruturas da garganta. Não à toa, muita gente percebe que ronca mais nos períodos em que a rinite piora.

Alterações da garganta também pesam. Amígdalas aumentadas, palato mole alongado, úvula grande e base da língua volumosa reduzem o espaço por onde o ar passa. Em crianças, a hipertrofia de amígdalas e adenoides é, isoladamente, uma das principais causas de ronco e apneia.

Excesso de peso é um fator independente. O acúmulo de tecido gorduroso ao redor do pescoço comprime as vias aéreas de fora para dentro. Pequenas variações de peso costumam ter impacto direto na intensidade do ronco.

Posição de dormir influencia. Dormir de barriga para cima permite que a língua caia para trás, fechando parcialmente a faringe. Muita gente ronca apenas nessa posição.

Álcool, sedativos e relaxantes musculares intensificam o relaxamento da musculatura da garganta. Quem ronca pouco pode roncar muito depois de uma noite com bebida.

E há fatores anatômicos individuais: queixo retraído, mandíbula pequena, pescoço curto e largo. Não são modificáveis, mas precisam ser identificados, porque mudam a estratégia de tratamento.

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A relação com as obstruções nasais

O nariz é desenhado para ser a porta de entrada do ar. Ele aquece, umidifica e filtra o que vai chegar aos pulmões. Quando essa porta está fechada ou estreita, o corpo improvisa pela boca, e essa improvisação tem custo.

A respiração bucal seca a mucosa da garganta, aumenta a vibração das estruturas moles e reduz a pressão negativa que mantém as vias aéreas abertas durante a inspiração. O resultado é mais ronco, sono mais fragmentado e maior risco de apneia.

Tratar a obstrução nasal nem sempre elimina o ronco, mas costuma reduzir a intensidade dele e melhora a tolerância a outros tratamentos, como o uso de aparelhos intraorais ou de CPAP, quando necessários. Por isso, a avaliação otorrinolaringológica começa quase sempre pelo nariz.

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O impacto na qualidade do sono

O sono não é um estado uniforme. Ele tem fases, e as fases mais profundas, em que o corpo se recupera de verdade, dependem de respiração estável. Cada episódio de ronco intenso ou apneia interrompe esse ciclo. A pessoa não chega a acordar conscientemente, mas o cérebro registra a interrupção e volta para um estágio de sono mais superficial.

Quem dorme oito horas com sono fragmentado descansa menos do que quem dorme seis horas de forma contínua. Os sinais aparecem no dia seguinte:

  • Cansaço ao acordar, mesmo após uma noite longa
  • Sonolência durante o dia, sobretudo após o almoço ou ao dirigir
  • Dificuldade de concentração e lapsos de memória
  • Irritabilidade e oscilação de humor
  • Dor de cabeça matinal
  • Boca seca ao despertar
  • Vontade frequente de urinar à noite

Quando o ronco vem acompanhado de pausas respiratórias percebidas pelo parceiro, engasgos noturnos ou despertares com sensação de sufocamento, o quadro tem grande chance de ser apneia obstrutiva do sono. A apneia não tratada está associada ao aumento da pressão arterial, ao risco cardiovascular, ao agravamento do diabetes e à queda de desempenho cognitivo ao longo dos anos.

Não é um problema estético do sono. É um problema clínico.

Quando procurar um otorrinolaringologista

A consulta é indicada sempre que o ronco for frequente, alto o suficiente para incomodar terceiros, ou estiver associado a qualquer sinal de sono não reparador. 

Em crianças, qualquer ronco habitual merece avaliação, porque os efeitos sobre crescimento, aprendizado e comportamento são significativos.

A avaliação começa pela história clínica e pelo exame físico das vias aéreas. A nasofibroscopia, exame feito no consultório com uma fibra óptica fina, permite visualizar nariz, faringe e laringe em tempo real e identificar com precisão onde está o estreitamento. 

Em casos com suspeita de apneia, o passo seguinte costuma ser a polissonografia, exame que registra o sono durante uma noite e mede o número e a gravidade dos eventos respiratórios.

A partir desse mapeamento, o tratamento é definido. Pode envolver controle da rinite, correção cirúrgica do septo, redução de cornetos, retirada de amígdalas e adenoides em crianças, perda de peso orientada, mudança de posição para dormir, aparelho intraoral, CPAP ou combinações desses recursos. 

Não existe tratamento padrão. Existe o tratamento certo para a anatomia e a rotina de cada paciente.

O recado que fica

Roncar não é frescura de quem dorme do lado, e não é apenas uma característica da pessoa. É um sintoma. Quando aparece de forma persistente, está dizendo que algo no caminho do ar precisa ser olhado. Investigar cedo significa dormir melhor, acordar com mais energia e proteger a saúde cardiovascular e cognitiva a longo prazo.

Se você ronca há tempos, se acorda cansado mesmo dormindo o suficiente ou se alguém já percebeu que sua respiração para durante o sono, agende uma avaliação. O exame é simples, e o ganho na qualidade de vida costuma ser imediato.

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Kallil Fernandes

Médico otorrinolaringologista formado pela UFRN em 2015, com residência no Hospital Universitário Onofre Lopes entre 2016 e 2019.

Sou membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial e atendo em Natal, Rio Grande do Norte.

A minha missão é cuidar da saúde dos seus sentidos: audição, olfato e paladar.

Kallil Fernandes | Otorrino em Natal
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